‘Perdi 32 parentes na guerra’, diz sírio de Guta Oriental que fugiu para o Brasil

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Por favor, mandem ajuda para comprar comida. Só preciso de comida para as crianças.” Sentado em uma mesa de sua lanchonete em Osasco, o cozinheiro Mohamad Algohorani, de 35 anos, mostra o celular com mensagens como essas em um grupo de Whatsapp.

Os apelos chegam diretamente de Guta Oriental, região dominada pela oposição nos arredores de Damasco que se tornou alvo de uma das ofensivas mais sangrentas por parte do governo sírio e da Rússia na última semana.

São amigos, conhecidos e ex-vizinhos de Mohamad que não tiveram a mesma sorte que ele e não conseguiram sair de sua localidade, Ein Tarma, antes que ela fosse cercada pelas forças do presidente Bashar al-Assad, em 2013.

Desde 2013, 400 mil pessoas vivem em péssimas condições na região. Na ofensiva dos últimos dez dias, mais de 500 civis morreram – 250 em apenas 48 horas.

Nesta semana, os pedidos de ajuda se tornaram mais desesperados, conta o refugiado, que mora no Brasil desde 2014. Ex-moradores de Guta que hoje estão espalhados pelo mundo tentam enviar o que podem para ajudar os parentes e amigos que estão sitiados.

Mas não é fácil: não há mais bancos funcionando por lá, os intermediários que conseguem entregar esse dinheiro cobram comissão alta e, mesmo assim, não há garantias de que a doação chegue aos civis e não seja desviada para comprar armas, lamenta Mohamad.

“Mas deste grupo aqui eu conheço todo mundo. Tem muitos velhos, são pessoas honestas, não tem ladrão”, conta o refugiado, falando em português com um forte sotaque e a voz triste, apesar do sorriso afável.

O pouco dinheiro que chega até lá não rende muito. Os preços dos produtos no comércio que restou estão inflacionados.

Um quilo de açúcar, calcula, custa atualmente o equivalente a R$ 50. “Tudo está caro. Guta tem muita coisa, tem trigo, mas não tem a máquina para fazer farinha, por exemplo”, diz.

Antes da guerra, Guta era uma região agrícola produtora de vegetais e frutas, incluindo damascos. Já foi o maior fornecedor de arroz, açúcar, frutas e vegetais da capital. Era também considerado um “pulmão verde”, onde os habitantes de Damasco passavam o final de semana. “Era um lugar muito bonito, tranquilo, sem violência”, lembra Mohamad.

Criança recebe atendimento após ataque em al-Shifuniyah, em Guta Oriental, no domingo (25) (Foto: Hamza Al-Ajweh / AFP )

Criança recebe atendimento após ataque em al-Shifuniyah, em Guta Oriental, no domingo (25) 

Agora, o inverno rigoroso, com temperaturas abaixo de zero, dificulta qualquer cultivo. Em sua cidade não há mais nenhum hospital funcionando, conta o sírio. Desde que os ataques aéreos se intensificaram nos últimos dias, também não há eletricidade, o que prejudica a comunicação. “Eles não podem ligar o motor da luz porque a bomba cai no lugar que está iluminado”, explica.

Mesmo assim, de vez em quando chegam mensagens de texto e de áudio no celular de Mohamad – em uma delas, é possível escutar o barulho de bombas explodindo sem parar, enquanto a pessoa fala.

“Quando saí de lá, eram 15, 20 bombas em um dia. Agora, são 30 bombas em um minuto. Só ontem foram mais de 100”, conta o sírio.

Mohamad deixou Ein Tarma em 2012, um ano após o início da guerra. As duas casas que pertenciam à sua família foram bombardeadas. Seis meses depois, sua localidade e a maior cidade próxima, Jobar, foram atingidas, segundo moradores e organizações, por um ataque químico.

“Só nesse ataque, quatro primos meus morreram. No meu bairro foram 400 pessoas mortas”, diz.

Ele afirma ter perdido 32 familiares desde o início da guerra. “Minha família é muito grande. Morávamos todos no mesmo bairro”, conta. Hoje, só sobraram um tio e dois primos morando lá, além dos muitos amigos e conhecidos. Um deles, que ele considera “um irmão”, perdeu um braço em um bombardeio. “Fiquei muito triste com isso. Crescemos juntos”, diz.

A mãe, a irmã e o irmão de Mohamad estão no centro de Damasco, onde a situação é um pouco mais tranquila, apesar das dificuldades econômicas trazidas pela guerra. O refugiado sonha em trazer a mãe para o Brasil.

Bombardeios a Guta Oriental - veja mapa (Foto: Karina Almeida/Arte G1)Bombardeios a Guta Oriental - veja mapa (Foto: Karina Almeida/Arte G1)

Bombardeios a Guta Oriental – veja mapa 

Mohamad Algohorani se comunica por Whatsapp com os amigos e parentes que estão em Guta (Foto: Flávia Mantovani/G1)

Mohamad Algohorani se comunica por Whatsapp com os amigos e parentes que estão em Guta 

Quando decidiu deixar tudo para trás no início da guerra, Mohamad foi primeiro para o centro de Damasco. Levou a mulher e o filho, que na época tinha sete meses. Mesmo com sua experiência de cozinheiro, inclusive em um grande hotel internacional da capital síria, ele não conseguiu um emprego com um salário que pagasse as contas.

Resolveram tentar a sorte no Líbano, onde viveram por dois anos, mas também não conseguiram prosperar no pequeno país, que recebeu mais de 1 milhão de refugiados sírios desde o início da guerra.

O casal não podia voltar para a Síria, já que Mohamad seria imediatamente convocado para lutar pelo Exército.

“Imagina, se eu fosse lutar, seria obrigado a matar meus vizinhos, meus amigos. Não podia fazer isso.”

Foi quando Mohamad soube que o Brasil estava dando vistos para sírios que queriam fugir da guerra. Mesmo sem conhecer ninguém por aqui, ele veio, primeiro sozinho. Chegou um mês antes da Copa do Mundo de 2014.

Um ano depois, conseguiu trazer a mulher e o filho, que agora tem seis anos e fala árabe e português. O casal teve outro filho nascido no Brasil, que agora tem 1 ano de idade.

Sem falar português nem inglês, Mohamad enfrentou dificuldades nos primeiros tempos no Brasil. A vida ainda está “um pouco difícil”, diz, mas ele e a família gostam de morar aqui.

“Os brasileiros são gente boa. Em outros países, se você é árabe, já acham ruim. Aqui vocês dizem: ‘seja bem-vindo’.”
Bombardeio em Guta Oriental no dia 22 de fevereiro (Foto: AMER ALMOHIBANY / AFP)

Bombardeio em Guta Oriental no dia 22 de fevereiro 

Mas Mohamad se preocupa com os amigos que ficaram em Guta. Alguns pegaram em armas e lutam com grupos de oposição contra os soldados do governo. Outros apenas esperam em casa, com suas famílias, e sob a mira de bombas, que surja uma saída.

“Quando alguém manda comida, tem comida. Quando não manda, não tem. Fico imaginando como eles se sentem sem poder alimentar os filhos. Só Deus está com eles”, diz.

Mohamad não acredita que a guerra vá acabar tão cedo. A trégua aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU no último sábado também não o ilude. “Acho que vai ter mais dez anos de guerra. Não acaba, nunca acaba.”

 

 

 

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